O “conhecimento de si” é uma parte e resultado do “cuidado de si”. Em seu curso “A Hermenêutica do Sujeito”, ministrado do Collège de France em 1982 e posteriormente transformado em livro, Foucault aborda o conceito de cuidado de si como um princípio ético fundamental, anterior a qualquer conhecimento verdadeiro sobre si mesmo.

 Sócrates dizia → Cuidai, ocupai-vos com vós mesmos!

“Meu caro, tu, um ateniense, da cidade mais importante, reputada por sua cultura e poderio, não te envergonhas por cuidares de adquirir o máximo de riquezas, fama e honrarias, e não te importares nem cogitares da razão, da verdade e de melhorar quanto mais a tua alma?” 

 O conceito de autocuidado vem de epimélia heautoû “cuidado de si” e aponta para a atitude do sujeito perante a vida, o seu modo de encarar as coisas, de estar no mundo, praticar ações, relacionar-se consigo mesmo, com o outro e com o todo. A peculiaridade desse modo de perceber parece estar centrada na auto observação, na atitude intencional de prestar atenção em si mesmo, ao que se passa em seu próprio corpo, mente e espírito. De maneira articulada com uma prática ou um conjunto de práticas que devem estar ativas durante toda a vida de um sujeito que se propõe a construir a si mesmo, um sujeito ético. 

 Já a ideia de autoconhecimento vem de gnôthi seautón “conhece a ti mesmo”. Este termo, gnôthi seautón, é um dos três preceitos délficos que estavam escritos no Templo de Apolo em Délfos, que por sua vez eram recomendações aos consultantes em relação à sua consulta. Conhece a ti mesmo apontava ao auto exame, trata-se de um imperativo para examinar a si e suas questões, ter em mente sua condição, suas limitações, seu tamanho e medida. Ao longo da história, com a modernização do pensamento, esse conceito obscureceu a centralidade do cuidado de si. 

 Foucault fala sobre uma inversão de valores na passagem da filosofia antiga para a moderna: “Se definirmos a espiritualidade como gênero de práticas que postulam o sujeito, tal como ele é, não capaz de verdade, mas que a verdade, tal como é, é capaz de transfigurar o sujeito (e o salvar), diremos então que a idade moderna das relações entre sujeito e verdade começa no dia em que postulamos que o sujeito, tal como é, é capaz de verdade, mas que a verdade, tal como é, não é capaz de salvar o sujeito.” 

 Sendo assim, nessa perspectiva, o sujeito moderno é aquele que busca conhecer a verdade somente pelas vias do conhecimento, do saber intelectual. Quando o busca. Porém antes desse tempo, o modo de acesso à verdade, pelo sujeito antigo (epimeleia heautou) se dava através do processo de construção de si, de engajamento prático com sua própria vida em direção àquilo que se buscava fazer dela. Somente a partir dessa ação sobre si, desse movimento de transformação pelo cultivo e atenção contínua, que o conhecimento de si floresce como resultado interior deste imperativo do cuidado de si, que permanece anterior.

 Não é que exista uma desvalorização do conhecimento natural, científico, do saber intelectual em detrimento de qualquer tipo de obsessão em trabalhar na construção de um ideal de eu. O saber intelectual tem o seu valor e ele pode ser adquirido como um tipo de recompensa por cuidar da construção de um sujeito ético, como os antigos faziam. A grande questão aqui é a aplicabilidade e a utilidade desse saber. O verdadeiro valor de um conhecimento se prova na medida em que transforma o modo de ser do sujeito no sentido de um fortalecimento ético, maior firmeza e maior coragem.

 Epiméleia heautou, o cuidado de si, é antes de tudo, cuidado da alma. É sobre um profundo senso de espiritualidade não limitado à religião. É o resgate de uma filosofia prática, que se faz e se revela como verdadeira na medida em que a narrativa do saber se transforma em ação, em movimento. Somente assim, se comprometendo com a constante auto observação e por meio da disciplina de cuidar integralmente de sua própria vida, da vida que pulsa em seu corpo, que flui em sua mente, que emana de sua alma, é que pode emergir o verdadeiro autoconhecimento. Colocando de outro modo, é preciso esforço e trabalho para saber quem se é e o que fazer com isso. 

“Em uma palavra, a filosofia antiga e a verdade de seu discurso não se veiculam absolutamente à resposta da questão “quem somos nós?” como natureza ou essência cognoscíveis, mas à questão “o que devemos fazer com nossa existência” como sujeitos que agem.”

Ruth Gonçalves


2 respostas para “O que vem primeiro, o autoconhecimento ou o autocuidado?”

  1. Avatar de Henrique Gonzalez
    Henrique Gonzalez

    Gostei da reflexão. Me fez pensar. Acho apenas que faltou um elemento importante. O texto passa a impressão que o indivíduo sozinho é capaz de buscar autoconhecimento ou autocuidado. Na prática é impossível fazê-lo sozinho. Precisamos do outro para nos dar a referência do bem, do bom, do belo e do ético. Essa referência surge da interação com o outro. Daí os mestres, guias, professores e terapeutas. Quem sabe você não escreve sobre isso no seu próximo texto.

    1. Avatar de rootsz.admin

      Sim, você tem razão. Até mesmo nesse contexto da filosofia antiga, que uso como base para escrever o texto, a busca pelo conhecimento e cuidado de si se dava através dos encontros humanos. No texto chego a mencionar que esse ato de cuidado de si está também envolvido num modo de se relacionar com o outro e não somente em atitudes praticadas em isolamento, mas de fato precisarei de um outro texto para aprofundar o olhar nesse sentido. Vou refletir mais sobre o assunto e me inspirar para um próximo texto. Obrigada pela crítica construtiva.

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