Recentemente, meditei sob orientação de uma Monja do Budismo Tibetano, seguindo os ensinamentos de Buda na linhagem Vajrayana. Foi essa prática, somada à psicanálise, que me deu força e clareza para atravessar um momento bem difícil da minha vida, o fim de um vínculo de amor distorcido marcado por desequilíbrios profundos. Com direito a perseguição pós término, tentativa de prejudicar a minha carreira, ameaças e cenas de terror invadindo a minha mente todos os dias. O medo intenso que senti durante esse período era constantemente reforçado não só pelas minhas memórias e projeções, mas por viver em um corpo de mulher numa cultura misógina que normaliza e relativiza tudo quanto é tipo de violência contra a mulher. Motivada em não me deixar destruir, em não perder o foco dos meus objetivos e em diminuir a intensidade do sofrimento psicoemocional com o qual estava lidando, pratiquei com disciplina diariamente as lições que recebia e lembro de muitas vezes me surpreender com o efeito imediato de pacificação mental e emocional. Era como fazer uma higiene psíquica, através da prática conseguia minimizar as emoções e sentimentos densos e potencializar o silêncio, a compaixão, a paz e a sensação de que tudo ficaria bem.

Ainda assim, algo nesse gesto de me sentar silenciosamente comigo mesma todos os dias enquanto ignorava (ou não usava esse mesmo tempo para lutar contra) todas as injustiças que ocorrem no mundo lá fora, somente para encontrar algum conforto dentro de mim, me incomodava profundamente. Uma vez, então, questionei a minha mestra, disse: por que eu deveria querer me iluminar em silêncio quando o mundo está ruindo, quando a vida na Terra está sendo destruída e violentada de tantas maneiras? Por que eu deveria me retirar em silêncio ao invés de agir em busca de transformar este mundo num melhor lugar para se viver?

 Infelizmente, não anotei literalmente o que ela me respondeu e já se passou mais de um ano dessa conversa. Mas lembro perfeitamente que o que ela me disse intensificou a minha motivação e meus esforços para continuar praticando. Entendi que a busca pela iluminação e a ação no mundo não são mutuamente exclusivas. Pelo contrário, elas se complementam de maneira profunda e significativa. A iluminação não está no ato de se isolar em silêncio, numa gruta, no topo de uma montanha ou em algum canto da sua casa. Trata-se de uma sutil e radical transformação interna que, por sua vez, manifesta-se em ações que transformam o mundo externo. Quando despertamos para a nossa verdadeira natureza, nós nos tornamos mais capazes de agir com clareza, compaixão e sabedoria. Este estado de consciência e presença amorosa é o que possibilita ações mais eficazes e verdadeiramente benéficas para todos os seres.

 É no silêncio profundo que ouvimos com clareza a dor de toda a humanidade, porque ela ressoa com a nossa própria dor, com o nosso sofrimento. Ao tocar essa dor com uma consciência desperta, a ação se torna medicina – e não reação cega. Ao cultivar a paz interior, você se torna uma fonte de paz no mundo, influenciando aqueles ao seu redor de maneira positiva. Esta harmonia permite que a ação, o ativismo, não seja consumido pelo desespero ou pela raiva, mas venha de um lugar de amor e propósito firme. Existe mais de uma forma de lutar. Existem batalhas que se vencem com o confronto, e existem aquelas que só se vencem sustentando um olhar profundo que não vacila diante do caos. Portanto, a busca pela iluminação não é uma fuga. É uma dedicação para retornar à natureza búdica, livre do medo, da raiva e da ignorância. É um caminho para enxergar o mundo como ele é, cultivando a capacidade de interagir com ele sem se perder nele. 

 Reagir tomada pela urgência e pelo desespero é fácil, e muitas vezes desastroso. Mais difícil é agir a partir da lucidez e da paz. E essa é a ação que verdadeiramente transforma. A clareza e paz interior, no entanto, só podem ser alcançadas através da prática constante da observação do que há além da mente, a consciência. A meditação é a arte da contemplação dessa natureza dentro de nós. Meditar é praticar a percepção de que você não é a mente. E se você não é a sua mente, se não é o que você pensa que é, se não é seu título, se não é as suas memórias, se não se limita ao seu gênero, classe ou cargo, quem é você? Quem é essa consciência observadora?

O estado meditativo é como um paraíso perdido que pode ser recuperado. É a nossa natureza, nascemos meditativos, mas o processo de socialização pouco a pouco poluiu nossa essência e inocência. Na verdade, essa essência não pode jamais ser perdida, apenas esquecida e soterrada com percepções equivocadas. Então, o objetivo da meditação é a libertação do sofrimento e da ignorância, é a iluminação, que é como acordar de um sonho, que é o retorno para essa essência. Iluminar-se é perceber que muito do que pensamos ser, nossos medos, desejos, narrativas, apegos, são apenas névoas, véus que distorcem a percepção correta da realidade de quem somos. Um ser iluminado é capaz de ver a realidade como ela é, sem distorções. Não mais reage movido pela ignorância, pelo medo ou paixões, mas age a partir de um lugar de profunda sabedoria e amor. A prática da meditação serve para desconstruir o eu ilusório e permitir que a luz da consciência brilhe por inteiro. Porque só a partir do coração desperto, livre das raízes do sofrimento, é possível tocar o mundo sem espalhar mais dor. 

 A pessoa que escreve esse texto nesse momento ainda não alcançou tal estado iluminado. Já tive pequenas experiências de despertares e insights, transformações e transcendências de situações pessoais que me causaram sofrimento e foram pacificadas desde dentro, na clara luz do vazio interior. Mas reconheço, permaneço sendo um ser que sofre e vive suscetível à ilusões, às paixões e ao apego. Ainda me distraio, perco o ritmo e o entusiasmo, para apenas me lembrar de retornar à prática quando preciso “higienizar” o acúmulo de toxinas psicoemocionais que se acumulam dentro. Portanto, toda essa narrativa sobre iluminação é apenas um esforço intelectual para tentar descrever uma realidade que só pode ser compreendida quando experimentada. O que no fim das contas vale o esforço por me lembrar porquê continuar praticando: que não é só por mim, pela minha própria paz (que já vale muito), mas pela esperança de me tornar o melhor que posso ser, que é quem realmente eu sou, para o maior benefício de todos os seres. 

Ruth Gonçalves


4 respostas para “Meditação e libertação do sofrimento”

  1. Avatar de Daniele Nakagawa
    Daniele Nakagawa

    Vejo muita profundidade nas coisas que descreveu, assim como uma grande dificuldade em conseguir chegar nesse estado, as vezes conseguimos por raros momentos atingir tal estado, mas o mundo e suas demandas infinitas nos sugam de nós mesmos e do trabalho interno a ser desenvolvido, persito…
    Reflexão poderosa!!! Agradecida 🙏🏻…
    Muita luz✨

    1. Avatar de rootsz.admin

      Muito agradecida por ter feito uma pausa em meio a todas essas demandas para ler esse relato tão íntimo pra mim. Seguimos sempre dando o melhor possível a cada momento, que nunca é o mesmo. Sempre em frente, com amor e gratidão…

  2. Avatar de Tiago Rodrigues Leitao
    Tiago Rodrigues Leitao

    Adorei o seu relato! Com certeza despertou minha curiosidade sobre a meditaçao. Já era super fan do seu trabalho. Nao conheço atendimento melhor. Cada dia me surpreendo mais com vc. Vc é linda, fofa, competente e muito especial. Que continue assim! Parabéns! Bjos.

    1. Avatar de rootsz.admin

      Muito agradecida por todo o carinho e também pela atenção e disposição em ler esse relato tão íntimo pra mim. Obrigada pelo feedback também!

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